O Desafio a Escolher

 

O DESAFIO A ESCOLHER
 
 
O corpo do grande discurso de nosso Senhor na Montanha, sem erro, foi concluído em Mateus 7:12. A natureza radical e não convencional do Reino, seus cidadãos e sua justiça foram clara e poderosamente traçados (5:3-7:12). Os demais versículos do Sermão (7:13-27) contêm o apelo de Jesus pelo compromisso de seus ouvintes.
 
Este not√°vel discurso espiritual, que d√° defini√ß√£o a toda verdadeira prega√ß√£o do evangelho, n√£o foi pretentido meramente para informar, mas para persuadir. O Serm√£o da Montanha toca nossa vontade, bem como nosso entendimento. √Č um chamado a escolha radical. E o Grande Pregador n√£o pretende que escapemos dele ou de sua mensagem. Ele est√° dizendo, com efeito: "Meu Serm√£o est√° terminado. Agora voc√™ tem que decidir o que voc√™ far√° a respeito dele. Pondere cuidadosamente. Escolha sabiamente. Vida e morte est√£o no rumo que voc√™ tomar."
 
O que é óbvio em tudo isto é o fato que, não obstante todo o poder de Deus, os homens podem rejeitar sua vontade. Seu longo e árduo trabalho redentor resulta, finalmente, não em um decreto irresistível (Atos 7:51; Hebreus 10:29); mas em um convite solene (Mateus 11:28-30).
 
 
O homem n√£o √© um rob√ī. Sua vontade, por determina√ß√£o de Deus, √© inviol√°vel. Jesus pode suplicar, mas n√£o pode compelir. Assim, ele nos ensina pacientemente e, ent√£o, insistentemente solicita.
 
Ao fazer seu apelo de encerramento, o Senhor fala s√≥ de duas alternativas: duas portas, dois tipos de fruto, dois fundamentos. A escolha pode ser dif√≠cil, por√©m n√£o √© complexa. Temos que decidir entre o caminho da submiss√£o e da confian√ßa e o caminho da rejei√ß√£o e da rebeli√£o. Ele insiste com seus ouvintes para que escolham entre estas alternativas, considerando n√£o somente suas exig√™ncias, mas tamb√©m suas conseq√ľ√™ncias. Aonde esta estrada me levar√°? Que tipo de fruto esta √°rvore produzir√°? Resistir√° esta casa √† mais violenta tempestade?
 
As exorta√ß√Ķes deste trecho final podem ser divididas em tr√™s unidades (7:13-14; 15-23; 24-27). Entre duas admoesta√ß√Ķes a escolher sabiamente, est√° inserido um aviso sobre o perigo da s√°bia escolha apresentada por falsos mestres.
 
 
O Caminho Estreito
 
"Entrai pela porta estreita (larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz para a perdição e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela." (Mateus 7:13-14)
 
 
Aqui Jesus abertamente insiste com seus ouvintes para que escolham o caminho que é duro e apertado e rejeitem um trajeto mais fácil e mais confortável. Ele até deixa claro que a estrada à frente é tão inexoravelmente exigente quanto a porta pela qual nela se entra, e mais do que isso, pode ser, algumas vezes, um caminho solitário, uma vez que muitos homens não o acharão a seu gosto. O convite ao reino feito pelo Senhor, notavelmente honesto, torna excessivamente repugnantes os apelos carnais e as promessas açucaradas de alguns pregadores modernos.
 
N√£o h√° nada de surpreendente neste convite. √Č um convite a entrar num reino cuja fei√ß√£o mais saliente tem sido a estreiteza de sua vis√£o e a singeleza de seu compromisso (5:48; 6:19-24,33).
 
A porta estreita é a soberana autoridade do Senhor, e o caminho apertado a obediente submissão à Sua vontade. Aqueles que entram não se encontrarão mais fazendo a coisa esperada, tradicional, óbvia. Seguindo o Filho de Deus, suas vidas serão tão diferentes como seus destinos.
 
Obviamente, há muitas coisas que aqueles que escolhem a estrada estreita do reino têm que deixar para trás. Estaremos abandonando a multidão despreocupada que nunca tem que perguntar se o que está fazendo é agradável a Deus.
 
O que é mais importante, estaremos nos desfazendo de nossa velha personalidade, com seu modo arrogante, teimoso e egoísta e entregando a mente e o pensamento a um Soberano mais sábio e mais benevolente (Mateus 16:24-25; 2 Coríntios 10:4-5).
 
Somente deste modo chegaremos a ser mansos e misericordiosos, pobres de espírito e puros de coração, capazes de amar nossos inimigos e orar por aqueles que nos perseguem.
 
Mas, se o caminho estreito do reino constringe o espírito obstinado e a mente voltada para si mesmo, ele não estreita o amor (Filipenses 1:9; Efésios 3:17-19); não constringe a paz (Filipenses 4:7); não seca a alegria (1 Pedro 1:8); não espreme a misericórdia (Efésios 2:4); não esmaga a bondade (2 Coríntios 9:8); não estrangula a esperança (Romanos 15:13).
 
Tudo isto abunda na estrada estreita. A √ļnica coisa que a porta estreita arranca de n√≥s √© aquela impiedade que nos envenena e destr√≥i.
 
Somente o homem que ainda ama essa impiedade se sentirá oprimido e sufocado na estrada do Rei. O pecado é o ladrão que veio "roubar, matar e destruir", mas o "Bom Pastor" veio para que os homens tenham vida, e tenham-na abundantemente (João 10:10).
 

Buracos na Estrada Estreita

"Acautelai-vos dos falsos profetas que se vos apresentam disfar√ßados em ovelhas, mas por dentro s√£o lobos roubadores" (Mateus 7:15). Apenas uma segunda vez, no Serm√£o, Jesus inicia suas palavras com um s√≥brio "acautelai-vos" (grego proskete). A primeira aborda o perigo de dentro: hipocrisia (6:1). Ele agora fala do perigo de fora: os falsos mestres. H√° algumas pressuposi√ß√Ķes naturais, que ficam por tr√°s da insistente advert√™ncia do Senhor (John R. W. Stott, Christian Counter-Culture, p√°g. 197).

A primeira √© que os falsos profetas n√£o eram s√≥ uma possibilidade te√≥rica, mas uma palp√°vel e amea√ßadora realidade. O Filho de Deus est√° nos dizendo que o reino do c√©u tem que ser procurado em um mundo onde mentiras e enganos a seu respeito abundar√£o. N√£o h√° nada de novo nisto. O Velho Testamento est√° repleto de advert√™ncias sobre falsos profetas (Deuteron√īmio 13:1-3; 18:20-22; Jeremias 23:13-32; 27:9-10; 29:8-9; Ezequiel 13:1-23; 22:28; Miqu√©ias 3:11; Sofonias 3:4). Jesus, na √ļltima semana antes de sua morte, soar√° um alarme final sobre o futuro aparecimento dos pseudo-profetas e pseudo-crist√£os (Mateus 24:5,11,24) e as ep√≠stolas do Novo Testamento revelam que o mundo dos ap√≥stolos estava cheio deles (Atos 20:28-29; 2 Cor√≠ntios 11:1-4,13-15; G√°latas 1:6-9; Colossenses 2:8,16-19; 2 Tessalonicenses 2:8-12; 1 Tim√≥teo 1:19-20; 4:1-2; 2 Tim√≥teo 2:16-17; 4:3-4; Tito 1:10-11; 2 Pedro 2:1-2; 1 Jo√£o 2:18-23; 4:1-3; 2 Jo√£o 9-11; Judas 3-4; Apocalipse 2:15,20-24).

√Č evidente, pelo Novo Testamento, que nunca houve um tempo quando os crist√£os n√£o estivessem empenhados em controv√©rsia com alguma forma de falso evangelho. Aqueles que querem servir o Senhor, mas serem livres de qualquer preocupa√ß√£o opressiva com os falsos mestres, est√£o simplesmente esperando pelo imposs√≠vel. Ningu√©m vai firmar-se seguramente ao caminho estreito sem ter alguns dif√≠ceis encontros com pseudo-disc√≠pulos que tentam subverter sua f√©.

H√° um n√ļmero de crist√£os que ainda se agarram ao mito de que houve um tempo id√≠lico na Historia do povo de Deus, quando o falso ensinamento era desconhecido e a paz e a unidade reinavam supremas. Pela seguran√ßa de nossa pr√≥pria f√©, precisamos abandonar essa ilus√£o e perceber que "atrav√©s de muitas tribula√ß√Ķes, nos importa entrar no reino de Deus" (Atos 14:22) e que algumas dessas tribula√ß√Ķes vir√£o de nossos pr√≥prios irm√£os, que falar√£o "cousas pervertidas, para arrastar os disc√≠pulos atr√°s deles" (Atos 20:30). Nosso Salvador nos deu esta advert√™ncia desde o in√≠cio.

A maior ameaça contra os que estão sinceramente procurando entrar pela porta estreita é aquele grupo de enganadores que parece estar sempre rondando, quando assuntos de vida e de morte estão sendo deliberados. Estes falsos discípulos são mestres em tornar obscuro o que é eminentemente óbvio: a diferença entre a vontade de Deus e a dos homens, a distinção entre o caminho largo e o estreito.

Mas quem s√£o esses falsos profetas de quem Jesus fala? Eles parecem ser n√£o somente do futuro, mas do presente, professores que estavam de p√© at√© ent√£o para impedir a entrada das almas sinceras no reino de Deus. Pensamos, quase imediatamente, nos escribas e fariseus, cujas pervers√Ķes e hipocrisia foram uma preocupa√ß√£o dominante deste grande Serm√£o. √Č verdade que eles n√£o eram disc√≠pulos de Jesus, mas certamente reivindicavam serem as verdadeiras "ovelhas" da pastagem de Deus.

Em sua √ļltima e acusadora censura a estes hip√≥critas, o Senhor os acusou de fecharem "o reino dos c√©us diante dos homens", nem entrando, nem deixando ningu√©m mais faz√™-lo (Mateus 23:13). Ele os chamou guias cegos de cegos (15:14) e advertiu seus disc√≠pulos para que ficassem longe do seu ensinamento (16:6-12). A advert√™ncia de Jesus, certamente, n√£o √© limitada √† aplica√ß√£o aos fariseus e os da sua laia, mas come√ßa a√≠ e avan√ßa para abranger todos aqueles que pervertem o evangelho e obscurecem a porta estreita.

A segunda pressuposi√ß√£o da advert√™ncia de nosso Salvador sobre os "falsos profetas" √© que h√° um padr√£o objetivo pelo qual aqueles que chegam proclamando falar a vontade de Deus podem ser julgados verdadeiros ou falsos. A mesma pressuposi√ß√£o guiou o ensinamento de Mois√©s, quando advertiu que, mesmo aqueles falsos profetas que lidavam com sinais aparentes e maravilhas, deveriam ser rotulados de enganadores quando exortaram Israel a desobedecer √† vontade j√° revelada de Deus (Deuteron√īmio 13:1-4). Os falsos profetas eram aqueles que falavam das "vis√Ķes do seu cora√ß√£o, n√£o o que vem da boca do Senhor" (Jeremias 23:16). Jesus, como Mois√©s, n√£o √© sincretista, juntando doutrinas radicalmente conflitantes e chamando-as igualmente verdadeiras. Ele j√° identificou o falso mestre em seu Serm√£o como sendo qualquer um que quebre o menor mandamento de seu Pai e ensine os outros a fazerem o mesmo (Mateus 5:19).

O espírito existencial destes tempos faz com que os homens se afastem dos absolutos. "A verdade", para eles, é totalmente uma questão de gosto. Mas o espírito do Grande Mestre é inflexivelmente exclusivo. Ele somente, ele diz, é a revelação da Verdade e ninguém pode encontrar Deus separado dele (João 1:18; 14:6). A vontade de seu Pai (Mateus 7:21), suas próprias palavras (7:24), tem que ser o padrão do julgamento. Mestres de nosso ou de qualquer outro tempo, que dizem que "há muitos caminhos para se chegar a Deus" não foram mandados pelo seu Filho Unigênito. Eles são falsos. Eles são enganadores.

Olhando sob a Pele do Carneiro
 
Uma terceira pressuposi√ß√£o, por tr√°s da advert√™ncia de Jesus contra os falsos mestres, √© que eles s√£o perigosos. Estes pseudo-profetas n√£o s√£o s√≥ indiv√≠duos momentaneamente desencaminhados. Eles s√£o corruptos at√© o √Ęmago, falsos na pr√≥pria ess√™ncia de suas vidas espirituais (". . . por dentro s√£o lobos roubadores"). Como o pr√≠ncipe bestial que os domina (1 Pedro 5:8), seu prop√≥sito n√£o √© servir, mas devorar. Eles n√£o nutrem seus seguidores, eles os consomem (Atos 20:29-30; 2 Pedro 2:3).
 
Mas o perigo real destes falsos profetas está em seu habilidoso engano. Eles chegam vestidos de ovelhas. Seu verdadeiro caráter e intenção estão sempre ocultos por uma aparência de piedade. Eles se fazem passar por discípulos.
 
O ignorante e o desprevenido que tratam descuidadamente com superficialidades est√£o destinados a serem enganados por estes espertalh√Ķes que, longe de serem abertamente carnais e repulsivos, s√£o, como Paulo os descreve, religiosamente atraentes (2 Cor√≠ntios 11:13), experientes na vida (Colossenses 2:8) e encantadores (Romanos 16:17-18). Eles s√£o justamente o tipo de pessoa que levaria os observadores superficiais a perguntar como estes professores bons, sinceros e instru√≠dos poderiam estar errados. Se quisermos andar em seguran√ßa no caminho estreito, n√£o √© suficiente sermos sinceros; temos que ser prudentes, tamb√©m (Mateus 10:16).
 
"Pelos seus frutos os conhecereis . . ." (Mateus 7:16). A advert√™ncia do Senhor sobre os falsos profetas com certeza iria levar um arrepio de medo atrav√©s dos cora√ß√Ķes dos disc√≠pulos. No mundo, o reino de Deus tinha muitos inimigos. Isto n√£o era novidade. Mas havia uma amea√ßa que vinha de dentro, de seus pr√≥ximos e √≠ntimos camaradas! Como poderiam eles saber em quem confiar? Como distinguir o falso do verdadeiro?
 
O medo dos pseudo-disc√≠pulos tem levado alguns crist√£os √† paran√≥ia. Eles percebem falsos mestres atr√°s de cada moita e est√£o constantemente numa disposi√ß√£o de √Ęnimo interrogativo e investigativo. Mas n√£o h√° nada nas palavras de Jesus que deveria tornar seus disc√≠pulos num temperamento suspeito, at√© mesmo c√©tico, com todos os seus irm√£os.
 
√Č ao n√≠vel do fruto que estes julgamentos t√™m que ser feitos e n√£o antes que o broto surja fora da terra. Como diz Bonhoeffer: "N√£o h√° necessidade de ir espiar dentro dos cora√ß√Ķes dos outros. Tudo o que necessitamos fazer √© esperar at√© que a √°rvore produza fruto, e n√£o teremos que esperar muito tempo" (O Custo do Discipulado, p√°gina 146).
 
Por esta raz√£o n√£o precisamos hesitar em ser justos com os professores que atravessam nosso caminho, dando-lhes o benef√≠cio da d√ļvida at√© que as circunst√Ęncias estejam claras. Isto n√£o nos tornar√° confiantemente simples ou nos tornar√° em carne fresca para cada enganador. O fruto revela a √°rvore no tempo certo. E parece melhor ser momentaneamente enganado por um lobo ocasional do que estar constante e impetuosamente tentando arrancar a l√£ de cada uma das ovelhas do Senhor.
 
Ainda, julgamentos terão que ser feitos e advertências emitidas quando chega a colheita do fruto dos falsos mestres. Ainda que a proibição do Senhor de julgar os outros (Mateus 7:1) elimine um julgamento duro e injusto, ela certamente não proibe a examinação dos professores e dos assim chamados profetas. Os espíritos têm que ser provados para determinar "se procedem de Deus" (1 João 4:1). O conselho do Senhor aqui não é o mesmo que na Parábola do Joio (Mateus 13:36-43). Ele não tem nada a ver com fazer o julgamento divino final dos homens e portanto não precisa ser reservado para Deus e a vida futura.
 
Jesus est√° simplesmente dando conselho prudente sobre como os falsos mestres podem ser reconhecidos e evitados. Os eventos do dia-a-dia os revelar√£o. Todos os disfarces cair√£o, finalmente. As pretens√Ķes n√£o podem ser mantidas para sempre. As √°rvores dar√£o fruto.
 
Mas qual será a natureza do engano destes profetas e qual é o fruto pelo qual eles têm que ser provados?
 
Os falsos profetas da era do Velho Testamento eram homens dos quais todos falavam bem (Lucas 6:26). Sua prega√ß√£o era sempre confortante, mesmo quando as circunst√Ęncias exigiam advert√™ncia e repreens√£o (Jeremias 6:14). Eles profetizavam mentiras (Jeremias 27:9-10), mas eram sempre mentiras atraentes que serviam a seus pr√≥prios prop√≥sitos ego√≠stas (Miqu√©ias 3:11).
 
A advertência presente de Jesus revela que as coisas não devem ser diferentes na era do evangelho. Os falsos profetas haveriam de falar mentiras intencionais (1 Timóteo 4:2), de modo a atender aos fregueses que buscam enganos confortantes (2 Timóteo 4:3-4).
 
Descuidados das reais necessidades do povo de Deus, estes professores lhes diriam o que eles queriam ouvir. Tais pregadores provavelmente farão pouca ou nenhuma menção à justiça de Deus, o horror ao pecado, a necessidade do verdadeiro arrependimento, ou ao inferno (Atos 24:25). Eles não declararão "todo o desígnio de Deus" (Atos 20:27). Não haverá "caminho apertado" em sua pregação.
 
Mas qual é o fruto destas "árvores corruptas"? O próprio fato de que eles são chamados "falsos profetas" mostra que o fruto de suas bocas é corrupto, falso. Seu ensinamento não passará no exame da palavra de Deus (Atos 17:11). Mas desde que a boca fala "do que está cheio o coração" (Mateus 12:34), o mal na nascente vai revelar-se tanto no caráter como no ensinamento.
 
A melhor defesa contra estes enganadores é amar o Senhor supremamente e apreciar sua palavra. Aqueles que estão sinceramente procurando o caminho apertado e a porta estreita não serão arrastados por estes hipócritas egoístas.
 
O Car√°ter dos Falsos Mestres
 
Os falsos profetas s√£o, por √ļltimo, n√£o simplesmente errados em seu ensinamento, mas tamb√©m em seus cora√ß√Ķes. A desonestidade com a mensagem do evangelho vai criar a desonestidade na vida. As for√ßas interiores que produzem a mensagem desviada, a princ√≠pio (orgulho da vida, temor dos homens, amor ao dinheiro, concupisc√™ncia da carne, etc.) inevitavelmente se manifestar√£o no comportamento, ainda que sutilmente.
 
Esta é a razão pela qual a advertência de Jesus sobre os falsos profetas leva tão naturalmente a uma discussão para testá-los pelo seu caráter, bem como pela sua mensagem. Os supostos profetas têm que ser provados, primeiro, ao nível de seu ensinamento. O que eles têm a dizer deverá ser comparado com o evangelho proclamado "desde o começo" (1 João 1:1-3; 2:18-24; 4:1-3; Gálatas 1:6-8) e, quando o seu ensinamento não for igual ao evangelho, o ensinamento deve ser rejeitado (2 João 9-10).
 
Do ponto de vista de nossos próprios tempos, todos os professores que chegam proclamando nova revelação divina deverão, em vista
do fato que a divulga√ß√£o da vontade de Deus em Cristo foi completada h√° muito tempo (Jo√£o 16:12-13; 2 Tim√≥teo 3:16-17; 2 Pedro 1:3; Judas 3) e a conseq√ľente termina√ß√£o do of√≠cio prof√©tico (1 Cor√≠ntios 13:8), ser rejeitados completamente. Mas, finalmente, o fruto da
árvore corrupta será produzido e sua natureza revelada. Os falsos mestres não podem ser bons homens. O ímpio pode, às vezes, pregar um puro evangelho, mas os falsos mestres são incapazes de viverem vidas verdadeiramente piedosas.
 
A analogia de Jesus referente √† natureza: a √°rvore √© conhecida pelos seus frutos, frisa o ponto que a cidadania do reino n√£o √© mat√©ria de apar√™ncia, mas de exist√™ncia. As pessoas, como as √°rvores, produzem o tipo de fruto que sua natureza exige. Portanto, ser um crist√£o n√£o √© simplesmente quest√£o de fazer alguma coisa nova, mas de ser algo novo. √Č o tipo de vida que come√ßa no cora√ß√£o, no centro da personalidade. Esta √© a raz√£o por que s√≥ √© produzida por um novo nascimento (Jo√£o 3:3-5).
 
Alguns têm tentado seguir a Cristo acrescentando alguma nova dimensão a suas vidas, quando é a vida em si mesma que tem que ser mudada. Pode-se atar uvas aos espinhos e figos aos cardos, mas eles não crescerão ali. Um lobo pode vestir-se de lã, porém não pode produzi-la.
 
O verdadeiro filho do reino √© diferente. Como Jesus disse, "do seu interior fluir√£o rios de √°gua viva" (Jo√£o 7:38). O pecado, em todas as suas manifesta√ß√Ķes, come√ßa no cora√ß√£o (Mateus 15:19) e √©, conseq√ľentemente, no cora√ß√£o e do cora√ß√£o que um novo tipo de fruto tem que ser produzido.
 
√Č por causa da natureza interior da verdadeira piedade que a examina√ß√£o dos mestres e disc√≠pulos em geral tem sempre que ser uma procura debaixo da pele. H√° uma justi√ßa e uma piedade que surgem, n√£o de uma humilde f√© no Filho de Deus, mas de um orgulho e do desejo de excel√™ncia moral e espiritual.
 
A sutil, porém indisfarçável, falha desse tipo de "espiritualidade" é a total ausência nela de qualidades das bem-aventuranças: a mansidão, a compaixão e a auto-negação, a piedosa tristeza pelo pecado. Haverá também, sobre esta atraente pátina religiosa, uma incapacidade para produzir o fruto do Espírito: "amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio" (Gálatas 5:22-23).
 
√Č por esta mesma raz√£o que Jo√£o, lutando em suas ep√≠stolas com os mestres gn√≥sticos que amea√ßavam, com suas pervers√Ķes, dominar as igrejas, insiste n√£o s√≥ num exame doutrin√°rio dos professores, mas num exame √©tico.
 
Como muitos movimentos religiosos que apareceram desde ent√£o, o gnosticismo floresceu porque ele pegou o esp√≠rito da √©poca, que era reivindicar uma profunda espiritualidade que transcendia todas as quest√Ķes morais e √©ticas. Os mestres gn√≥sticos ofereciam um novo e aperfei√ßoado evangelho, que n√£o sofria o desprezo do mundo em geral e dava liberdade das agonizantes quest√Ķes da justi√ßa pr√°tica. Seu sucesso aconteceu quando abalaram a confian√ßa dos santos fi√©is, tanto no evangelho como em sua pr√≥pria salva√ß√£o.
 
Em resposta, João fala francamente: "Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso" (1 João 2:4); "Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas" (2:9); "Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça, não procede de Deus, também aquele que não ama a seu irmão. Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta . . ." (3:10-11). Mas, quanto à grande popularidade destes pregadores e de sua mensagem? Isto não mostra que eles são verdadeiros profetas? João, de novo, responde claramente: "Eles procedem do mundo; por essa razão falam da parte do mundo, e o mundo os ouve" (4:5).
 
Os cristãos precisam orar pelo discernimento, pela sabedoria e pela fé para não serem enganados pelos falsos mestres, que cobrem seu erro com uma piedade aparente, mas superficial. Eles precisam, também, procurar a libertação da mentalidade do "sucesso", que vê cada avanço carnal como testemunho da verdade de sua mensagem, enquanto os mandamentos de Deus são abandonados, tanto na pregação como na vida.
 
Para os disc√≠pulos que lutam laboriosamente com um mundo antag√īnico e os √≠mpios desejos que aparecem at√© mesmo dentro de suas pr√≥prias personalidades, tais profetas de um "novo evangelho" sempre ter√£o um apelo poderoso, mas o apelo √© da escurid√£o, n√£o da luz. "Acautelai-vos dos falsos profetas". "Pelos seus frutos os conhecereis".
 
O Que é o Reino de Deus
 
"Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mateus 7:21).
 
Como √© evidente por esta contundente advert√™ncia, o discipulado superficial n√£o √© inven√ß√£o do s√©culo vinte. Jesus estava atormentado por ela desde o in√≠cio de sua prega√ß√£o p√ļblica (Jo√£o 2:23-24). As fileiras dos entusi√°sticos, mas insensatos "f√£s", pareciam crescer juntas com sua popularidade inicial, e ele estava constantemente preocupado em sacudi-los para terem consci√™ncia s√≥bria do que significava segui-lo (Lucas 14:25-35).
 
Entretanto, estes mesmos eram os naturais herdeiros dos fariseus, e dos insensatos ritualistas que, s√©culos antes, tinham feito nascer a apaixonada e, freq√ľentemente, fulminante repreens√£o dos profetas do Velho Testamento (Isa√≠as 1:11-17; Am√≥s 5:21-24).
 
Com linguagem que se tornou ainda mais penetrantemente franca, Jesus se volta dos falsos profetas para os falsos seguidores e seus falsos padr√Ķes. √Č perigoso para um homem tomar a estrada larga que vai para destrui√ß√£o, de prop√≥sito, mas √© infinitamente mais perigoso tom√°-la, crendo que √© o caminho para vida. Gritos entusi√°sticos de "Senhor, Senhor" podem ser nada mais do que um conveniente bocado de l√£ para encobrir um cora√ß√£o obstinado. Pode nem haver um lobo debaixo desse pelego, mas ali h√° certamente um bode! Profiss√Ķes vazias s√£o t√£o perigosas para a estrada estreita como os falsos profetas.
 
Não há nada de mau quanto a uma sincera confissão de fé no Filho de Deus e o reconhecimento aberto que ele é o Senhor. Na verdade, não pode haver verdadeiro discipulado sem esta confissão (Mateus 10:32-33; Romanos 10:9-10). Mas a tragédia se instala quando isto é tudo que existe, uma declaração verbal da soberania de Jesus, sem qualquer evidência de submissão (Lucas 6:46).
 
Quem são estes ousados confessores? Eles não são hipócritas conscientes, pois Jesus diz que eles não entenderão a rejeição deles no juízo final (7:22). Eles não são preguiçosos imprestáveis, porque Jesus não disputa sua proclamação de zelosa atividade em seu nome. Seu problema é simples. Em todo o seu dizer e fazer, eles não tinham feito aquilo que ele esperava deles e que era fazer a vontade de seu Pai.
 
Neste ponto, os que aspiram a trilhar a estrada estreita t√™m que ser muito claros. No reino de Deus, nada ser√° recebido como substituto para a obedi√™ncia! Certamente n√£o a mera confiss√£o oral. Absolutamente n√£o a diligente pr√°tica de ordena√ß√Ķes religiosas que se originam no homem antes que em Deus (Marcos 7:1-8). N√£o, nem mesmo a fiel observ√Ęncia de certos seletos mandamentos de Deus, enquanto outros est√£o sendo estudiosamente negligenciados ou desobedecidos (Mateus 23:23). E, por √ļltimo, n√£o ser√° nem aceita√ß√£o, quando um s√≥ de todos os mandamentos de Deus est√° sendo teimosamente recusado, ignorado ou pervertido (Marcos 10:17-22; Tiago 2:8-11).
 
Isto não tem nada a ver com a justificação pelas obras. Tem a ver com a sincera fé, lealdade indivisa e absoluta confiança. Haverá sempre misericórdia do Senhor para aqueles cujo coração está totalmente decidido a agradá-lo em todas as coisas, pois eles estarão sempre querendo aprender mais, buscar o perdão, e fazer melhor. Mas para o homem que seleciona e escolhe o seu caminho através da vontade divina, nem toda a zelosa atividade religiosa que possa ser montada será suficiente para cobrir o fracasso.
 
"Muitos, naquele dia, h√£o de dizer-me: Senhor, Senhor! porventura n√£o temos n√≥s profetizado em teu nome, e em teu nome n√£o expelimos dem√īnios, e em teu nome n√£o fizemos muitos milagres?" (Mateus 7:22). O fato que estes desobedientes confessores fazem a proclama√ß√£o n√£o contestada, que n√£o somente ter possu√≠do, mas ter exercido, dons miraculosos pelo poder de Cristo sugere que eles eram disc√≠pulos. Muitos sentiram que proclama√ß√Ķes deles tinham que ser falsas, mas n√£o necessariamente.
 
Quaisquer que fossem seus imensos fracassos como homem, Bala√£o certamente profetizou pelo poder de Deus (N√ļmeros 22:35; 23:16).
 
N√£o pode haver muita d√ļvida de que Judas Iscariotes, como um dos doze, empregou poderes miraculosos (Mateus 10:1). Os disc√≠pulos carnais de Corinto certamente o fizeram (1 Cor√≠ntios 1:4-7; 3:1-3). Dons espirituais jamais foram uma garantia da espiritualidade ou da divina aceita√ß√£o do mestre; somente de que a mensagem era verdadeira.
 
Assim nós, também, podemos pregar o verdadeiro evangelho a muitas pessoas e fazer "muitos milagres," mas afinal sermos rejeitados simplesmente porque não obedecemos ao Senhor (1 Coríntios 9:27; 13:1-3; Filipenses 1:15-17). Estes professores, que se iludem a si mesmos, estavam fazendo a pergunta errada. O grande trabalho que Deus tinha feito por meio deles não serviu para ganhar a salvação; se eles tivessem verdadeiramente servido e agradado o Senhor, isso sim, ganharia a salvação (Lucas 10:20).

A Humilhação Final

"Ent√£o lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim os que praticais a iniq√ľidade" (Mateus 7:23). A cena que Jesus descreve com estas palavras finais sombrias √© a de um grupo de entusiastas que usaram seu nome livremente e fizeram muito alvoro√ßo sobre seus la√ßos √≠ntimos com ele. Pelo modo ardente e reverente com que eles devem ter falado do Filho de Deus, os observadores os haveriam, sem d√ļvida, julgado como estando entre seus mais devotos disc√≠pulos. Ali, certamente, deve ter havido freq√ľentes e ferventes declara√ß√Ķes de que eles conheciam o Senhor. Isto era o talism√£ espiritual deles, o encanto que lhes deu seguran√ßa.
 
E foi justo neste exato ponto em que eles estavam mais orgulhosos, e numa hora e local quando seria mais desesperadamente devastante, que Jesus promete fazer sua profissão. Na presença de toda a humanidade em assembléia, incluindo cada pessoa que jamais o havia ouvido proclamar que ele era deles, ele haveria de dizer, "Nunca vos conheci . . ."! A absoluta humilhação de tal momento, para tal povo haveria de ser quase indescritível.
 
Em Lucas, o Senhor pinta um quadro similar de homens chorando por reconhecimento no juízo final (13:22-30). Mas ali é para aqueles cujo medo da "porta estreita" lhes tira a vontade de até dizer "Senhor, Senhor", quanto mais fazer sua vontade. A base de sua reivindicação não é que eles o tenham reconhecido como um Mestre, ou lhe prestado serviço, mas que eles tinham sido socialmente conhecidos. Ele tinha ensinado em suas ruas e comido à mesa deles.
 
Aqui está um quadro ainda mais surpreendente do que aquele dos ousados professores, pessoas que durante a vida inteira haviam rejeitado o Filho de Deus e, entretanto, ainda estavam esperando, e até mesmo acreditando, que ele não haveria de rejeitá-los.
 
Isto d√° novas dimens√Ķes √† capacidade dos humanos para enganarem-se a si mesmos. Espantoso como possa parecer, h√° multid√Ķes de homens e mulheres, hoje em dia, que sentem que seu rep√ļdio do Santo de Deus foi cumprido com tal cortesia e civilidade que isso n√£o lhes custar√° nada na eternidade.
 
Em Mateus, diferente de Lucas, Jesus est√° tratando com aqueles que se consideram seus disc√≠pulos. O fato que o Senhor lhes diz "Nunca vos conheci" n√£o significa, necessariamente, que eles jamais tinham sido aut√™nticos, mas que atrav√©s do tempo em que eles estiveram executando seus ostentosos "milagres" em Seu nome, sua desobedi√™ncia tinha-os feito estranhos para ele. Por fim, apesar de todas as declara√ß√Ķes deles e dos fervorosos trabalhos, eles n√£o estavam em melhor situa√ß√£o do que aqueles que, claramente, haviam rejeitado o Filho de Deus.
 
Jesus n√£o trata com mansid√£o estes reivindicantes que tentaram trocar submiss√£o por zelo. "Os que praticais a iniq√ľidade", ele os chama, como se para acordar seus ouvintes imediatos para o fato que, ainda que sutil, este tipo de rebeli√£o encoberta de piedade √© s√©ria e sua condena√ß√£o justa. A mesma palavra aqui traduzida como iniq√ľidade (grego anomia) √© usada de novo por Mateus, registrando a √ļltima e forte repreens√£o do Senhor aos fariseus. Como t√ļmulos caiados, eles tinham uma apar√™ncia de justi√ßa, mas eram por dentro "cheios de hipocrisia e de iniq√ľidade" (23:27-28). Jo√£o a emprega para descrever a verdadeira natureza e car√°ter do pecado: "transgress√£o" ou "injusti√ßa" (1 Jo√£o 3:4).
 
Mas se estes falsos disc√≠pulos s√£o transgressores, eles n√£o est√£o necessariamente negando que Deus tem uma lei. Para eles √© quest√£o, em algum ponto, de, recusar conscientemente a submeter-se √† vontade de Deus. Eles n√£o s√£o pessoas que pecam por inadvert√™ncia ou fraqueza, mas por des√≠gnio. Aqueles que pecam por fraqueza n√£o praticam uma susposta piedade, mas a humildade e o arrependimento. Eles sabem muito bem o que o pecado custa e n√£o querem nada dele. Jesus contrap√Ķe os feitos destes impostores contra os daqueles que fazem "a vontade de meu Pai".
 
Como j√° foi notado, o cen√°rio desta conversa√ß√£o prospectiva √© o do julgamento final, onde os destinos definitivos est√£o sendo decididos. O "apartai-vos de mim, os que praticais a iniq√ľidade", de cortar o cora√ß√£o, pode fazer o quadro de G√™nesis, de Deus expulsando suas criaturas rebeldes do √Čden, parecer quase brilhante. Houve um rem√©dio para aquela trag√©dia. Para esta outra, n√£o h√° nenhum.
 
O pecado é sempre uma força separativa, operando alienação da própria pessoa e dos outros, mas o extremo horror do pecado é o expulsão sem recurso da própria presença de Deus. Com que dificuldade lutamos para imaginar como seria jamais olhar a face do amor, bondade ou pureza, jamais, tanto em sua divina fonte como refletida nos homens que foram tocados por elas. Mais de um ano mais tarde, e usando uma linguagem similar, Jesus descreverá a experiência de ser lançado ao "fogo eterno" (Mateus 25:41).
 
Que nenhum de nós jamais possa aprender como a realidade desse momento ultrapassa estas palavras.


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